quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Crónicas de um final (2)

Levas esses teus olhos tristes,
Caminhas e quase vês o teu reflexo
Nas poças de água.

Levas essa falta de sorriso,
Como se energia te tivesse caído do coração,
Te pesasse nos braços
E não bastasse para alçar os cantos da boca.

Levas a mãos caídas.
Essas mãos cansadas de mim.
Do meu peso e o meu não ser.

Não é culpa tua.
Fomos o falhanço conjunto
Dos equilibrados.

Crónicas de um final (1)

Deixaste a tua camisola na minha cama,
Engelhada e de botões desbotados.

Ainda bem que deixaste a tua camisola na minha cama.
Cheira a ti.

Os soluços destas palavras são iguais a nós
E às intermitências da tua presença.

Saber de ti por uma camisola é sufoco.
Como se só pudesse respirar com a tua camisola
Encostada à minha cara,
Mas não quisesse cheirá-la
Com medo de que o teu cheiro desvaneça.

Se o teu cheiro desaparece,
Não sei se desapareces tu também.
Não sei se foges ou te diluis.
Não sei como te manter aqui.

Será que voltas?
Não há azul mar sem os teus olhos,
Nem lágrimas de riso sem o teu desconcerto,
Nem paz de alma sem a tua voz ao meu ouvido.

domingo, 10 de julho de 2016

Eu queria trazer-te para a minha insónia.
Não há horas, há só momentos aqui
E é uma prisão.
É a prisão ambulante onde não entras.
É só minha e não a percebes,
Não a conheces e culpas não há.
Não se conhece a claridade
Do desespero noturno senão na solidão.

Ainda assim,
Eu queria trazer-te para a minha insónia.
É aqui que existo quando não me sabes de cor,
É aqui que sou o pouco que não é teu.
Mas teu é tudo e o nada é impossível.

Não pode haver um nada depois de ti.
O nada acabou e eu não sou mais só minha.
És as horas claras do meu dia,
As carnais da minha noite,
Mas não conheces a minha insónia.

Não conheces a claridade que me destrói
Quando já não mais quero desaparecer.

Vou trazer-te para a minha insónia,
Vou trazer-te ao teu inumano.
É a única forma de saberes
O humano que me habita
E me quereres ou não quereres.

A eternidade é dos acordados,
Mas se tu dormes, quero adormecer também.
Este despertar do nunca adormecer,
É a prisão que me explica.
A única verdade que falta.


quinta-feira, 2 de junho de 2016

É quando te odeio que te amo.
Amo-te na constância horizontal do tempo.
Nas minúcias sem calendário nem aviso,
No sossego do teu braço ao adormecer,
Mas na verticalidade do tempo, o ódio.
Odeio-te como um raio de trovão.
Odeio-te porque te amo.
Odeio-te, mesmo sem saber odiar-te.
Odeio-te e depois amo-te ainda mais.
Odeio-te porque te amo e todo o meu corpo me relembra.
Não se pode odiar sem amar excessivamente.

Na verdade, nem sei se te odeio
Ou se te quero mais perto,
Se este ódio inflamado de desentendimento,
Não é mais que querermo-nos em abundância.

Odeio-te e amo-te a seguir, e antes também,
Porque sei que a constante és tu.
E sou eu. Essa é a unidade que fica.
O conforto desta mundana solidão partilhada.
Eu sei, eu amo-te

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Cores de domingo

Era o azul profundo
O vermelho e o laranja.
Bege a nossos pés 
E só luz nas nossas mãos.

Não era só vontade de viver
Nem de parar o tempo,
Era tudo num segundo.
Segundos de eternidade e certeza.

Que certezas bacocas,
Estas dos enamorados.
Bacocas promessas,
Fundadas de suor e pele com pele.

Mas há um sentido neste absurdo.
Tem de haver!

Quem éramos ontem,
Se só agora existimos?
Só a água e o silêncio sabem,
As cores dos teus olhos semiabertos
Fitando-me ao domingo de manhã!


segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Bandeira Branca

Hoje escapa-se-me a vida.
Sinto-a cada vez mas lenta nas minhas veias,
Cada vez mais escassa no meu espírito.

Os amores de cada um são variados,
Sucessos um luxo.
De todos os meus amores,
Tive os meus luxos ou luxúrias.

Quem sabe onde estão agora!
Que armadilha é esta que me dá tudo num dia
E me acorrenta no seguinte?

Não encontro mais ferramentas,
Não sei dos sossegos e confortos.
Não sei das forças nem das armas.

Sou uma fraca de armadura posta, 
Sou uma desarmada guerreira.

Sou as obras sem visão...
A visão do meu falhanço.

sábado, 21 de novembro de 2015

Porque te apraz tanto o vazio?
Porquê mirar à distância 
O fruto do teu desejo
Quando ele secretamente se oferece
A ti todos o dias?

Porquê o "não ser",
O "não estar", o "não querer"?

É tua a estafeta desta etapa,
És tu...