domingo, 10 de julho de 2016

Eu queria trazer-te para a minha insónia.
Não há horas, há só momentos aqui
E é uma prisão.
É a prisão ambulante onde não entras.
É só minha e não a percebes,
Não a conheces e culpas não há.
Não se conhece a claridade
Do desespero noturno senão na solidão.

Ainda assim,
Eu queria trazer-te para a minha insónia.
É aqui que existo quando não me sabes de cor,
É aqui que sou o pouco que não é teu.
Mas teu é tudo e o nada é impossível.

Não pode haver um nada depois de ti.
O nada acabou e eu não sou mais só minha.
És as horas claras do meu dia,
As carnais da minha noite,
Mas não conheces a minha insónia.

Não conheces a claridade que me destrói
Quando já não mais quero desaparecer.

Vou trazer-te para a minha insónia,
Vou trazer-te ao teu inumano.
É a única forma de saberes
O humano que me habita
E me quereres ou não quereres.

A eternidade é dos acordados,
Mas se tu dormes, quero adormecer também.
Este despertar do nunca adormecer,
É a prisão que me explica.
A única verdade que falta.


quinta-feira, 2 de junho de 2016

É quando te odeio que te amo.
Amo-te na constância horizontal do tempo.
Nas minúcias sem calendário nem aviso,
No sossego do teu braço ao adormecer,
Mas na verticalidade do tempo, o ódio.
Odeio-te como um raio de trovão.
Odeio-te porque te amo.
Odeio-te, mesmo sem saber odiar-te.
Odeio-te e depois amo-te ainda mais.
Odeio-te porque te amo e todo o meu corpo me relembra.
Não se pode odiar sem amar excessivamente.

Na verdade, nem sei se te odeio
Ou se te quero mais perto,
Se este ódio inflamado de desentendimento,
Não é mais que querermo-nos em abundância.

Odeio-te e amo-te a seguir, e antes também,
Porque sei que a constante és tu.
E sou eu. Essa é a unidade que fica.
O conforto desta mundana solidão partilhada.
Eu sei, eu amo-te

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Cores de domingo

Era o azul profundo
O vermelho e o laranja.
Bege a nossos pés 
E só luz nas nossas mãos.

Não era só vontade de viver
Nem de parar o tempo,
Era tudo num segundo.
Segundos de eternidade e certeza.

Que certezas bacocas,
Estas dos enamorados.
Bacocas promessas,
Fundadas de suor e pele com pele.

Mas há um sentido neste absurdo.
Tem de haver!

Quem éramos ontem,
Se só agora existimos?
Só a água e o silêncio sabem,
As cores dos teus olhos semiabertos
Fitando-me ao domingo de manhã!


segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Bandeira Branca

Hoje escapa-se-me a vida.
Sinto-a cada vez mas lenta nas minhas veias,
Cada vez mais escassa no meu espírito.

Os amores de cada um são variados,
Sucessos um luxo.
De todos os meus amores,
Tive os meus luxos ou luxúrias.

Quem sabe onde estão agora!
Que armadilha é esta que me dá tudo num dia
E me acorrenta no seguinte?

Não encontro mais ferramentas,
Não sei dos sossegos e confortos.
Não sei das forças nem das armas.

Sou uma fraca de armadura posta, 
Sou uma desarmada guerreira.

Sou as obras sem visão...
A visão do meu falhanço.

sábado, 21 de novembro de 2015

Porque te apraz tanto o vazio?
Porquê mirar à distância 
O fruto do teu desejo
Quando ele secretamente se oferece
A ti todos o dias?

Porquê o "não ser",
O "não estar", o "não querer"?

É tua a estafeta desta etapa,
És tu...

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Até onde vai a existência?
De onde a onde se mede?

Tudo o que dizemos, criamos,
As pessoas em que existimos, ...
Será isso a continuação
Da nossa existência?

Será possível sair deste poema 
E agarrar-te pela mão para que fiques?
Será que dá para ficares
Mesmo que tenhas de ir?

Como se enche o buraco sem ti?
Como se faz paz com a inexistência de ti?

Há existências que nunca deviam ir.
Confiei que sempre lá estariam
E neste momento, não há discurso
"Do correr da vida" que me convença.

Tu que me abriste portas e os olhos,
Tu que me deixaste um bilhete de comboio na mão,
Tu que fizeste de museus rebuçados aos meus olhos de criança,
Tu que me mostraste os nossos poetas e pintores,
Tu que me escutaste toda música e toda eu,
Produto muito do teu dedo de fada madrinha.

Vais ter de continuar a existir.
Existências como a tua não desaparecem.

Nós não conhecemos
O correr dos dias sem ti.
Ensina-nos!
Mas só se tiver de ser.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Da verdade e da honestidade

Honestidade é pão de ricos.
Não se serve à mesa de podres de espirito.

Honestidade é a moeda dos nobres e sábios.
Não é perícia, é coragem.
É a mão firme piedosa da palavra necessária,
no momento doloroso.

Temer a verdade é temer a fome.
Nada vive sem alimento
E o do espírito é o mais esquecido.
Verdade é sina dos justos.

Temendo a honestidade,
vive-se a metade dos sentidos.
Tudo é máscara e dor anunciada.
Já dizia o poeta jornaleiro,
"De nenhum fruto queiras só metade".

Honestidade é a recusa
do sofrer adiado, próprio ou alheio.
Engano e indiferença são a morte lenta
do sonho, da fantasia.

A longa estrada da espera,
a recta que não dobra nem pára.
Porque me mentes e omites?
Não há atalhos no engano.
Sofrimento meu, assunto meu.
Não há sossego no esquecimento.
Não há sorrisos imaginados
na cara que não se mostra.
Não há verdade nas palavras não ditas
Nem honestidade no desaparecimento.