domingo, 10 de junho de 2018

Esperar mais um dia

Pode-se sempre esperar mais um dia.

Mesmo com desassossego nas mãos
Na espinha e no peito,
Com falta de ar e falta de tudo
Pode-se sempre esperar mais um dia.

Mesmo com esta lágrima insistente,
Com o desespero do nada e do nunca
Mesmo na companhia da tua ausência,
Pode-se sempre esperar mais um dia.

Um dia será o dia,
Um dia ver-me-ás com olhos de vontade
Com olhos de não querer perder.

Esse dia talvez nunca virá,
E mesmo que já não espere esse dia 
Por agora só há noite.
E em sonhos, não mandas tu,

Posso sempre esperar mais um.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Crónicas de um final (4)

Eu estou bem, não te inquietes.
Sei que nem perguntaste,
Mas eu prefiro achar que sim.
Estou bem de estômago deserto,
Estou bem de coração sangrento
E até mesmo de pés calejados.

Estou bem porque não quero estar mal.

Caminhámos muito.
Fomos grandes e pequenos.
Fomos bichos de conta preguiçosos,
Em vez de filmes, contávamos histórias.

Esta é uma frase batida,
Mas quero que me oiças mais uma vez.
Estou a cortar este cordão umbilical de guerreiro,
Com uma tesoura perra e por afinar.
E eu sei que ainda só somos de ontem,
Mas este corte eterno dói mais
Que uma impiedosa faca acabada de afiar.
Ou então dói igual,
Mas este é meu pretexto necessário.

Tu sabes mais destas dores...
Ensinas-me os teus truques?
Como posso confiar no tempo,
Se lhe quero o contrário?

Já sei que é altura de ir,
Mas fica por perto, por favor.
Sê perfeito, porque o imperfeito não resultou.
Não foste suficiente, nem eu.
Portanto agora vou-me sentar e vou esperar.
Vou esperar por mim.
Esperar até poder dizer-te 
Que estou viva, sem mentir.


Adeus.

sábado, 21 de abril de 2018

Crónicas de um final (3)

Eras como água fria.
Quando fizeste parte de mim,
Foste os meus arrepios.
Arrepios dos bons e dos maus.
Eras como água fria no verão,
Exactamente o que eu queria e precisava.
Eras como a água quente do meu banho
No frio do inverno.
O aconchego que competia
Com qualquer manta do mundo.
E ganhavas-lhes.
Depois viraste-me as costas.
Não foi culpa tua, mas parecia de propósito.
Passaste a ser água a ferver no verão,
Água gelada no inverno.
Desesperei de calor sem alívio
E chorei de frio na espinha.

Hoje és água que me foje entre os dedos
E me seca na pele.
Não ficas mas molhas.
E eu tenho sede.
Sedes e medos.

Às vezes cresce-se e aprende-se,
Que água não se agarra nas mãos.
Uns segundos dela
E temos de ser felizes.

Já dizem os antigos,
"A mesma água não passa duas vezes
Debaixo da mesma ponte."

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Crónicas de um final (2)

Levas esses teus olhos tristes,
Caminhas e quase vês o teu reflexo
Nas poças de água.

Levas essa falta de sorriso,
Como se a energia te tivesse caído do coração,
Te pesasse nos braços
E não bastasse para alçar os cantos da boca.

Levas as mãos caídas.
Essas mãos cansadas de mim.
Do meu peso e o meu não ser.

Não é culpa tua.
Fomos o falhanço conjunto
Dos equilibrados.

Crónicas de um final (1)

Deixaste a tua camisola na minha cama,
Engelhada e de botões desbotados.

Ainda bem que deixaste a tua camisola na minha cama.
Cheira a ti.

Os soluços destas palavras são iguais a nós
E às intermitências da tua presença.

Saber de ti por uma camisola é sufoco.
Como se só pudesse respirar com a tua camisola
Encostada à minha cara,
Mas não quisesse cheirá-la
Com medo de que o teu cheiro desvaneça.

Se o teu cheiro desaparece,
Não sei se desapareces tu também.
Não sei se foges ou te diluis.
Não sei como te manter aqui.

Será que voltas?
Não há azul mar sem os teus olhos,
Nem lágrimas de riso sem o teu desconcerto,
Nem paz de alma sem a tua voz ao meu ouvido.

domingo, 10 de julho de 2016

Eu queria trazer-te para a minha insónia.
Não há horas, há só momentos aqui
E é uma prisão.
É a prisão ambulante onde não entras.
É só minha e não a percebes,
Não a conheces e culpas não há.
Não se conhece a claridade
Do desespero noturno senão na solidão.

Ainda assim,
Eu queria trazer-te para a minha insónia.
É aqui que existo quando não me sabes de cor,
É aqui que sou o pouco que não é teu.
Mas teu é tudo e o nada é impossível.

Não pode haver um nada depois de ti.
O nada acabou e eu não sou mais só minha.
És as horas claras do meu dia,
As carnais da minha noite,
Mas não conheces a minha insónia.

Não conheces a claridade que me destrói
Quando já não mais quero desaparecer.

Vou trazer-te para a minha insónia,
Vou trazer-te ao teu inumano.
É a única forma de saberes
O humano que me habita
E me quereres ou não quereres.

A eternidade é dos acordados,
Mas se tu dormes, quero adormecer também.
Este despertar do nunca adormecer,
É a prisão que me explica.
A única verdade que falta.


quinta-feira, 2 de junho de 2016

É quando te odeio que te amo.
Amo-te na constância horizontal do tempo.
Nas minúcias sem calendário nem aviso,
No sossego do teu braço ao adormecer,
Mas na verticalidade do tempo, o ódio.
Odeio-te como um raio de trovão.
Odeio-te porque te amo.
Odeio-te, mesmo sem saber odiar-te.
Odeio-te e depois amo-te ainda mais.
Odeio-te porque te amo e todo o meu corpo me relembra.
Não se pode odiar sem amar excessivamente.

Na verdade, nem sei se te odeio
Ou se te quero mais perto,
Se este ódio inflamado de desentendimento,
Não é mais que querermo-nos em abundância.

Odeio-te e amo-te a seguir, e antes também,
Porque sei que a constante és tu.
E sou eu. Essa é a unidade que fica.
O conforto desta mundana solidão partilhada.
Eu sei, eu amo-te